A transição digital não se faz sem pessoas

O contexto de pandemia atual obrigou a uma transformação digital nos métodos de ensino. Independentemente de como será o próximo ano letivo, sabemos que a tecnologia terá um papel muito importante. Contudo, é importante perceber que a transição digital não se faz sem pessoas.

A necessidade urgente de implementar o Ensino a Distância (EaD) pôs a descoberto os problemas de literacia digital nas escolas – professores e alunos. De um momento para o outro, passou a ser necessário trabalhar, no mínimo, com uma plataforma de Gestão de Aprendizagens e outra de Videoconferência, o que, para a maioria, não era tarefa fácil.

Assim, num curto espaço de tempo, as escolas constituíram Equipas de Apoio ao Plano de Ensino a Distância (E@D), os centros de professores disponibilizaram formação adequada e o Ministério da Educação criou o site Apoio às Escolas. No entanto, é em grupos de Facebook criados informalmente, como o ‘E-Learning Apoio’, o ‘A pensar em…’ ou o ‘Comunidade Tools4Edu’, que está patente o empenho e, por vezes, entusiasmo com que muitos professores agarraram esta missão. Ali, chovem diariamente, e a toda a hora, dezenas de perguntas, que são respondidas por outros professores, mais ou menos experientes, reinando o espírito de entreajuda. É também nas redes sociais que proliferam webinars (seminários na Web) sobre as mais diversas tecnologias educativas, aos quais os professores assistem em massa.

Passou apenas um período, mas, digitalmente falando, parece que passaram anos. Neste momento, não se sabe como será o próximo ano letivo, mas independentemente da modalidade em que este decorra, a tecnologia continuará, certamente, muito presente. Contudo, as aprendizagens realizadas só serão proveitosas, se todos estiverem conscientes que o objetivo é caminhar para uma transformação pedagógica suportada na utilização das TIC, ao invés, de uma utilização exaustiva das TIC para suportar as metodologias de sempre.

Para já, de acordo com o Programa de Estabilização Económica e Social, há a promessa de uma transição digital para as escolas, mas, tendo em conta que o mesmo documento não prevê qualquer verba para reforço dos recursos humanos, a transformação pedagógica será, provavelmente, uma miragem.

Trilhar o caminho certo implica dar formação e fazer o acompanhamento dos professores. As escolas e os centros de formação deveriam ter autorização para formar equipas, cuja função fosse exclusivamente acompanhar os docentes que, como é natural, mesmo com muita formação, quando chegam à sala de aula têm receio de aplicar o que aprenderam e recuam. Não pensar nisto é, voltar a cometer os erros do passado, aquando da distribuição massiva de computadores Magalhães.

Como formadora de professores, já acompanhei vários colegas que participaram nas minhas ações de formação e, posteriormente, me pediram para estar com eles na primeira aula em que iriam aplicar novas metodologias apoiadas nas TIC. Como membro da Equipa de Apoio ao Ensino a Distância do meu Agrupamento de Escolas, este pedido multiplicou-se: “Podes estar comigo na primeira aula síncrona?”. Durante essas aulas, os meus auscultadores estiveram ligados para ouvir os colegas chamarem por mim, caso fosse necessário, mas a câmara e microfone estiveram desligados. Não fiz nada em nenhuma delas, mas fiz toda a diferença no desbloqueio de medos. Quão útil seria que isto pudesse acontecer durante todo o ano letivo?

Aconteça o que acontecer é preciso lembrar que “a tecnologia pode melhorar o ensino de excelência, mas uma excelente tecnologia não compensa o ensino medíocre”. (Andreas Schleicher)

Carla Jesus (carlajesus.net)

Professora de Informática

AE Raul Proença

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