Academia de Código e ubbu: o impacto social da educação

“Com a educação muda-se uma comunidade”. De pequenos programadores a professores Jedi, acompanhe a entrevista com João Magalhães, cofundador e CEO da Academia de Código e ubbu.

Numa ponta do espetro, ensina-se código a adultos sem qualquer formação na área. Na outra, usa-se a tecnologia para explorar a criatividade e melhorar o desempenho escolar das crianças. João Magalhães explica-nos como se conseguiu colmatar um problema urgente e outro estrutural e, a partir da educação, criar impacto social.

Veja a nossa conversa aqui:

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Um “pai babado” assumido, é através deste lado mais pessoal que João Magalhães se dá a conhecer. Empreendedor por natureza, é apaixonado por negócios de caráter social, o que o motivou a cofundar a Academia de Código e a ubbu em 2014, altura em que faltavam no mercado mundial cerca de cinco milhões de programadores.

Hoje, a Academia de Código é a maior empresa portuguesa de impacto social a atuar na área da educação. Mas, afinal, o que é uma empresa de impacto social e como funciona?

João explica-nos que tanto a Academia de Código como a ubbu são esta mescla de dois tipos de entidades: uma empresa “for-profit” e uma fundação. Se, por um lado, a primeira tem por objetivo o retorno financeiro, a segunda tem como finalidade ajudar em áreas sociais sem fins lucrativos, nomeadamente na educação.

Sociedade digital e a necessidade da tecnologia em contexto educativo

A nível tecnológico, assistimos a uma transformação ímpar e transversal a todos os setores. No entanto, são ainda muitos os domínios da sociedade que não se adaptaram a esta velocidade, como é o caso da área do conhecimento.

Na educação superior, vivemos um paradoxo que se revela em altas taxas de desemprego jovem qualificado. Estamos ante uma dualidade em que as empresas precisam, sim, de talento com novas competências, mas que encontram enormes dificuldades de recrutamento.

A propósito desta “tendência global”, João relembra o estudo inicial que marcou a fundação da Academia de Código. Em Portugal, “percebemos que havia cerca de 15 mil vagas de programadores por preencher”, conta. Dados como estes serviram de base ao projeto, que, desde logo, procurou saber junto de empresas quais as suas necessidades reais.

Em simultâneo, estudos apontavam para um número considerável de novas profissões que deveriam surgir, mas ainda desconhecidas. Neste prisma, nasce a ubbu com o intuito de oferecer às crianças dos seis aos 12 anos skills para um futuro sustentável. Mesmo sem saber ao certo quais as profissões de amanhã, João explica que a “capacidade de resolver problemas, usar tecnologia e criatividade a par da cidadania e do pensamento crítico serão essenciais para o futuro”.

Verifica-se também que no ensino básico e secundário, continuamos a educar com competências que não se adaptam às tendências do momento, quanto mais do futuro. Apesar de não ser possível prever com exatidão profissões que ainda estão por surgir, hoje já estão identificadas algumas skills que serão certamente fundamentais.

Academia de Código, um ecossistema de alunos, professores, empresas e financiadores

1) Os alunos

O recrutamento é exigente e, com tantos candidatos, a taxa de aceitação é cada vez mais reduzida. Para João, é a personalidade de quem quer “fazer acontecer” que dita o sucesso da candidatura, dividida em três principais fatores:

1) Motivação para aprender e trabalhar

2) Gosto pela tecnologia

3) Nível básico de inglês, já que todos os materiais do curso são neste idioma universal.

O processo de recrutamento é também ele um “curso” por si só, uma fase de muita aprendizagem e apoio. Mais que ensinar a programar, é essencial perceber a lógica da programação. Os alunos começam por fazer um curso básico online de introdução a Ciências de Computação, totalmente desenvolvido pela Academia de Código. Segue-se um curso mais exigente de introdução à programação.

Posteriormente, é feito um desafio com base no que se foi aprendendo. Os candidatos que avançam são depois convidados a fazer um workshop presencial como que uma simulação do que serão as aulas. Por fim, quem passa à fase final, depois de dois a três meses, é entrevistado em pessoa e aí é feita a seleção. Já no final do bootcamp, proporciona-se uma hackathon de 24h, onde os alunos se dividem por equipas e devem apresentar uma solução para completar o curso com sucesso.

Importa dizer que quem entra, tem de “esquecer que tem vida e família”. Se sabemos que é possível mudar de vida em 14 semanas, convém esclarecer que não é tarefa fácil, mas tudo se consegue com a devida dedicação. São cerca de 700 horas (oficiais) de curso, “mas acabam por ser muito mais”, confessa João, daí a importância de os alunos se focarem o máximo possível sem distrações.

A intenção não é só transmitir a técnica, mas provocar uma transformação maior que vai abrir horizontes. “É saber comunicar, trabalhar em equipa, fazer projetos e passar por dias difíceis, porque o curso é muito intenso e muito exigente”, manifesta.

Nesta nova lógica de pensamento e terminado o curso, os alunos ganham inúmeras ferramentas. Além de ficarem a saber onde procurar quando precisam de se “desenrascar”, ganham independência para explorar informação, continuando, assim, a aprender, adaptar e a evoluir para acompanhar até mesmo as tecnologias de última geração que ainda estão por vir.

2) Os professores e métodos de ensino

Após várias abordagens no recrutamento dos próprios professores, hoje o corpo docente da Academia de Código é composto por antigos alunos. O bootcamp identifica ex-alunos que, “além de terem mais facilidade de aprender, têm uma capacidade enorme de comunicar, de perceber o que é lidar com grupos e uma capacidade muito grande de querer ajudar os colegas.” João destaca, por isso, a importância do espírito de entreajuda entre professores: “é super importante, porque sabem exatamente o que os nossos alunos passaram.” 

Mais concretamente, os bootcamps são compostos por uma equipa de três professores a tempo inteiro, por norma. Estes três perfis, inspirados na épica série de ficção científica “Star Wars”, refletem a evolução do percurso de cada professor:

2.1) Padawan – menos experiente, está a aprender programação e a ser professor

2.2) Master Coder – já tem alguma experiência a dar aulas, domina todos os temas, a cultura e as metodologias

2.3) Jedi – muito experiente, dá algumas aulas e é responsável por ajudar os outros professores a evoluir e a tornarem-se professores seniores

Estes ex-alunos estão “lá para dar uma atenção especial”, pois sabem exatamente o que toda a gente vai passar ou quando é mais natural alguém desanimar. Este fator “torna o nosso ensino um bocadinho único, porque há uma proximidade muito grande e próxima com os alunos”. João destaca este um dos motivos do sucesso da Academia de Código. 

Os métodos de ensino – remoto, aulas presenciais ou sessões one-on-one – são muito característicos e todos os dias são diferentes. São “uma mescla que os Master Coders vão gerindo no dia a dia”, decidindo o melhor formato, de acordo com a matéria e consoante o feedback que recebem dos alunos. “É uma coisa muito interativa e que varia bastante.” As aulas têm sempre uma abordagem prática com exercícios individuais e em grupo e apoio personalizado quando necessário.

3) As empresas

São mais de 70 as empresas envolvidas ao longo dos anos em diferentes vertentes, muitas das quais, gigantes internacionais:

3.1) Colocação dos alunos

“Nós próprios fazemos a colocação dos alunos”, revela João. Sabendo à partida que tipo de perfil as empresas procuram, a Academia de Código tenta “encaixar” os candidatos que mais fazem sentido à empresa e ao percurso de cada um.

3.2) Atualização do currículo

“Acredito que o nosso curso está ao nível dos melhores em qualquer parte do mundo. Não estamos estagnados e temos sempre que nos atualizar”, indica João, até porque “a tecnologia evolui tão rápido, que tudo muda”. O conteúdo programático revela isso mesmo, com a Academia de Código a tentar constantemente atualizar-se face às tendências para “acertar no que é exatamente procurado no mercado”.

3.3) Desenvolvimento de cursos específicos

Além do curso de 14 semanas de programador full-stack, têm vindo a ser criados outros cursos específicos a determinadas tecnologias e dirigidos a empresas que têm necessidade de formar colaboradores novos ou até mesmo os existentes, como é o caso da tecnologia outsystems, por exemplo.

4) Financiadores

De forma a amparar alunos que não conseguem pagar o curso de início, a Academia de Código procurou desde cedo obter financiamento. No entanto, por ser o primeiro bootcamp em Portugal, deparou-se com a incerteza de o sistema financeiro não estar preparado para conceder crédito a desempregados, apesar do seu elevado potencial.

A análise de risco destas entidades obriga a critérios específicos, que muitos dos candidatos não satisfazem, até porque “muitos deles não têm rendimentos, uma vez que estão desempregados.” Face a este obstáculo, a Academia tentou diversas soluções com a determinação de nunca deixar nenhum aluno para trás.

Certo é que, “como a taxa de empregabilidade é tão elevada e os salários de um programador bastante acima da média, quando comparados com outras profissões, que quem conseguir olhar para o potencial e não apenas o histórico do candidato, poderá ver mais valor.

Num mundo que tanto se altera e adapta, as novas competências fomentam não apenas alterações ao nível da educação, mas a necessidade e oportunidade de emergirem novos modelos de financiamento. Atualmente a Academia de Código tem como parceiros o Banco Montepio e a Fundação José Neves, ambos alinhados com os valores em que a Academia acredita.

A fundação José Neves oferece os já mencionados (nas semanas anteriores) Income Share Agreements e o Banco Montepio criou “um financiamento com condições pensadas só para estes alunos, em que há carência para terem tempo para encontrar emprego e depois um período de cinco anos para pagar o financiamento em prestações suaves.”

Voltando aos mais novos, porque “de pequenino se torce o pepino”, João entendeu que em 2015 “não existiam ferramentas, não havia currículo, ninguém que sabia bem como se ensina o pensamento computacional a crianças”.

Essa era a grande dificuldade a colmatar através da ubbu “e não é para serem programadores”, ressalva. O projeto pretende que as crianças “tenham a capacidade de se adaptar melhor às skills que vão ser necessárias quando forem para o mercado de trabalho”.

ubbu: novos conteúdos para uma nova geração  

Reconhecida pelo Presidente da Comissão Europeia em 2016 e vencedora do prémio de digital skills, a ubbu é hoje uma ferramenta multidisciplinar. Reúne conteúdos direcionados a professores de qualquer disciplina, para que, mesmo não tendo nenhuma formação nem experiência com Ciências da Computação, possam integrar a plataforma no seu currículo.

Em 2014, ao estudarem como o mercado de educação infantil se tentava modernizar, perceberam que vários países (Inglaterra, Nova Zelândia, Austrália, Finlândia, entre outros) tinham a tendência de introdução do ensino de pensamento computacional ou de programação nos currículos – como uma disciplina ou parte de outras. 

No ano seguinte, o projeto-piloto arrancou numa parceria com a Fundação Gulbenkian e a Câmara Municipal de Lisboa para se construir um programa de introdução do ensino do pensamento computacional em três escolas da cidade durante o respetivo ano letivo.

Em 2019 foram galardoados com o prémio do Financial Times como uma das 100 empresas europeias mais promissoras na área de educação e tecnologia. Em Portugal, são atualmente parceiros da Direção-Geral da Educação, que recomenda a solução aos professores que a quiserem experimentar ou passar a usar. Para tal, basta inscreverem-se. 

O objetivo é ser extremamente fácil de usar e disponibilizar formação e conteúdos exclusivos para professores, com planos de aulas, vídeos explicativos e exercícios com jogos.

No ano de 2020 conseguiu-se disponibilizar a ferramenta a todas as escolas públicas de forma totalmente gratuita com o apoio de várias entidades. Dado que têm sido numerosos os pedidos por parte dos Encarregados de Educação para usar a ubbu quando a escola não adota a plataforma, hoje já existe uma versão adicional e mais simples que torna possível as crianças a utilizarem de forma autodidata enquanto se divertem.

A medição do impacto social

A criação de impacto é “sempre um tema difícil de medir”, confessa João. Na Academia de Código é talvez mais fácil medir, porque a métrica de impacto será a taxa de empregabilidade.

Por outro lado, apesar da medição de impacto no contexto da ubbu ser mais complexo de medir, a Universidade Nova de Lisboa conduziu vários estudos na tentativa de perceber o impacto da iniciativa. Soube-se, assim, que a percentagem de alunos expostos à plataforma ultrapassou o desempenho dos colegas não expostos em disciplinas como a matemática. O projeto-piloto de 2015 foi o primeiro título de impacto social (ou seja, um instrumento de financiamento) em Portugal e o quinto em todo o mundo.

Outro exemplo de como novas estruturas financeiras podem ser usadas para aumentar o impacto social é o caso do programa levado a cabo durante três anos no Fundão com perto de 200 alunos. Em 2016, a Academia de Código foi convidada a participar num projeto que tinha como visão a criação de um centro tecnológico na cidade.

A iniciativa teve como investidor a Fundação Gulbenkian e uma associação de empresas de tecnologia da região, tendo sido financiado num formato de “pagamento por outcomes”, ou seja, pago com base no sucesso, mas só se a métrica é atingida. Durante as três edições, a Academia de Código atingiu sempre a métrica, tendo conseguido dar continuidade ao projeto por três anos. No final de cada curso era medida e comprovada a taxa de empregabilidade. 

Em iniciativas como esta qualifica-se o ativo mais importante de um lugar – as pessoas – por meio da educação e, assim, requalifica-se uma cidade, criando-se um polo de transformação e prosperidade numa zona mais interior de Portugal. Senão vejamos: em 2016, o Fundão, com 11 mil habitantes na altura, tinha apenas uma pessoa a trabalhar em programação. Neste momento, existem cerca de 800 pessoas a trabalhar na área na região e empresas multinacionais interessadas em investir neste polo tecnológico que é agora uma “região super competitiva”. Trata-se, mais uma vez, de mudar a vida das pessoas e das famílias, no fundo, da comunidade.

Surgiu, de igual modo, um projeto semelhante nos Açores, que continua a correr com inscrições abertas para os bootcamps. Na ilha Terceira, onde, na verdade, não haviam empresas do setor, criou-se localmente a “Terceira Tech Island”, que reavivou a ilha do ponto de vista tecnológico. Hoje em dia existem já mais de 20 empresas que contrataram os alunos da Academia de Código, entre outros residentes. É com projetos como estes que percebemos que ainda com uma falta muito grande de profissionais, as próprias empresas estão disponíveis para se deslocarem até onde está localizado o talento.

Por tudo isto, João acredita que a Academia de Código oferece muito mais que um curso e os resultados estão à vista: 95% dos alunos que concluem o programa conseguem emprego, alterando significativamente não só as próprias vidas como o panorama das regiões onde passam a trabalhar. Os resultados são ainda mais significativos se considerarmos que têm entre 18 a 54 anos, dos quais 50% não têm licenciatura.

Como a vida se altera significativamente após o curso e a experiência se revela tão intensiva, acaba por criar-se uma ligação especial e até emocional entre alunos e professores. “Iniciamos quase uma espécie de família; é muito bom poder participar nisso”, conclui João.

Também o sucesso da ubbu pode ser quantificado em números. Estudos concluíram que alunos com contacto com o conteúdo alcançaram notas de matemática 11-17% superiores face aos alunos da mesma escola que não tinham sido expostos, de acordo com a Universidade Nova de Lisboa.

Através da Academia de Código e da ubbu percebemos como a tecnologia pode trabalhar a favor do presente e das gerações vindouras. João Magalhães e ambas as empresas representam, portanto, ótimos exemplos de como a criatividade e a colaboração entre setores podem exponenciar soluções para os sérios problemas que o país enfrenta. 

Texto: Sofia Galante e Helena Antunes

Ilustração: Sónia Garcia Fevereiro

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