Ironhack: é importante NÃO ensinar a um aluno o que ele já sabe

Entrevista completa com Munique Martins, responsável pelo campus Ironhack em Lisboa.

Munique Martins lidera a Ironhack, instituição de ensino certificada pela DGERT. Começou desde cedo a ensinar e hoje a sua carreira inclui diversos projetos de coordenação e liderança em Inovação Educativa.

Veja a nossa conversa aqui: 

Ou pode ouvir no nosso podcast no spotify (ou noutras plataformas): 

Do ensino de Inglês à Tecnologia

O ensino surge na vida de Munique Martins aos 16 anos, quando se inicia a lecionar inglês. Mais tarde, coordenou uma escola de 800 alunos da Wise Up, uma das maiores redes mundiais de franquias de escolas de inglês para adultos.

Foi instrumental na mudança de metodologias de ensino na escola, onde os alunos passaram a aprender em regime blended e multi-level. Conta-nos que, apesar de exigirem mais trabalho dos professores, os resultados obtidos eram significativos.

Por um lado, no regime de blended learning, otimiza-se o ambiente de aprendizagem para diferentes competências. Em casa, o aluno pode focar-se na compreensão da leitura e repetição de exercícios e, na sala de aula, em falar e praticar a sua comunicação. Desta forma, maximiza-se aquilo que pode ser feito em ambiente de aula entre professores e colegas. 

Já no ensino multi-level, os alunos – tradicionalmente divididos por níveis (Básico, Intermédio e Avançado) – são colocados juntos. Os mais novos começam a ouvir e compreender vocabulário desde cedo e os alunos mais avançados solidificam conhecimentos ao ensinarem conceitos já adquiridos aos estudantes menos experientes. 

Bootcamp em jeito de regime militar 

A palavra bootcamp significa “um campo de treinamento militar para novos recrutas, com disciplina muito severa”. No bootcamp da Ironhack, isso significa 400 horas de ensino em apenas nove semanas. O horário equivale a uma pós graduação. 

O rigor deste método de ensino é reconhecido globalmente: garante a certificação de “curso técnico” em Berlim, de “BAC” (baccalauréat) em França e de “curso profissional” em Miami. De modo a adaptar a tecnologia ao mercado, leciona-se exatamente o mesmo conteúdo quer em Lisboa, quer em qualquer outra parte do mundo onde esta Tech School se situa.

Atualmente, a Ironhack ensina quatro cursos: 

  • Web Development 
  • Web Design UX/UI (User Experience/User Interface) 
  • Data Science 
  • Cybersecurity 

Por ser tão intenso, os alunos aceites no programa fazem primeiro um pré-curso online, onde aprendem aspetos mais básicos e ferramentas que serão utilizadas. Os professores podem ver o nível dos alunos e recomendar preparação adicional para o início do curso, caso necessário.

Apesar de promissor, a maior parte dos alunos desiste nesta fase. Mas nem tudo são más notícias, já que cerca de 98% dos que “sobrevivem” a esta fase completam todo o programa. 

Re-skilling e empregabilidade são grandes objetivos a curto prazo

Os principais objetivos da Ironhack a curto prazo são a empregabilidade e a introdução dos seus alunos no mercado de trabalho. 

Do perfil da maior parte dos alunos da Ironhack fazem parte:

  • Pessoas sem formação tecnológica prévia, que se encontram desempregadas (programa full-time) após terem estudado em áreas com menor empregabilidade no panorama nacional (ex: Ciências Sociais, Turismo, entre outras); 
  • Pessoas com cargos de elevado burn-out ou sem grandes oportunidades de progressão na carreira (programa part-time). 

Numa ótica de fast-paced learning, os programas são intensos e visam a obtenção de novas competências (re-skilling) de forma a permitir a realocação no mercado de trabalho. 

Deste modo, os vários projetos realizados ao longo do curso permitem a criação de um portefólio pessoal, que cada aluno poderá apresentar aquando da busca por trabalho. 

Outro aspeto interessante diz respeito aos conteúdos programáticos, definidos em colaboração com empresas. São estas que recrutam alunos do programa e que vão evoluindo as suas necessidades ao longo do tempo consoante a demanda do mercado.

O mundo da tecnologia evolui rápido e é necessário ouvir o mercado e a indústria. Mesmo em tempos de pandemia, a taxa de empregabilidade dos alunos da Ironhack é cerca de 85% nos seis meses após a finalização do curso.

Data Science e Cybersecurity foram os cursos mais recentes, ambos desenvolvidos após conversas com nomes da indústria, nas quais ficou latente a necessidade urgente deste tipo de profissionais. 

“Aprender a aprender”: os objetivos a longo prazo

Numa carreira em tecnologia, as mudanças são constantes. Mesmo que o aluno consiga entrar no mercado, para manter-se um bom profissional, o trabalho é árduo e exige dedicação – e constante aprendizagem.

Por isso mesmo, o intuito do curso é deixar os alunos mais independentes. Assim, cada aluno é responsável pela sua aprendizagem e, nas palavras de Munique, “o aluno vai retirar do boothcamp aquilo que ele coloca. Quanto mais trabalhar, mais vai retirar.”

Nesse sentido, são vários os métodos de ensino usados, permitindo ao aluno descobrir a sua própria forma de aprender: 

  1. Aulas dinâmicas com professores, nas quais os alunos participam ativamente e ajudam na realização de diversas tarefas. O principal foco é tentar não ensinar “mais do mesmo” ao aluno, ou seja, o que ele já sabe, mas sim, professores e alunos construírem algo juntos (ex: um website);
  2. Exercícios práticos para sedimentar o que foi transmitido nas aulas; 
  3. Realização de projetos (project-based learning), que ajudam a construir o portefólio de projetos de cada aluno.

Aprendizagem por “tentativa, erro”: percebe-se que testar, errar e ir melhorando é um dos lemas da Ironhack. Lá, o professor esforça-se para guiar o aluno, seja por diferentes formas de aprender ou de procurar informação.

Pretende-se sobretudo tornar o aluno independente para que ele próprio procure as suas formas de aprender…ao longo da vida.

O professor enquanto coach e especialista de mercado

Existem dois grandes educadores na Ironhack:

1. Professor

Não é o professor tradicional, mas um facilitador. Tem um papel essencial, que vai além de explicar como codificar. É um especialista no mercado, sabe os “maus hábitos” a evitar na aplicação de diferentes tecnologias e entende o que as empresas precisam. A sua experiência permite-lhe preparar os alunos para entrevistas de recrutamento.


2. Professores Assistentes 

São antigos alunos que ensinam antes de ir para o mercado. Mais que apoio técnico, auxiliam ao nível de soft skills como, por exemplo, a lidar com a pressão de estar num ambiente de tão rápida evolução e onde é sentida pressão (interna e externa) para aprender e progredir. “Trust the process!”, ouve-se por várias vezes em tom tranquilizante.


O aluno ideal para mudar de vida 

Tirar um curso já em idade adulta, que permita uma re-qualificação para o mercado de trabalho e coloca o desemprego para trás, soa a algo absolutamente incrível, mas não é fácil.

“Psicologicamente é muito díficil”, adianta Munique, lembrando que lidar com erros constantes em plena idade adulta é particularmente desafiante. Fora isso, existem limites ao que se pode reter em nove semanas. As posições são juniores e, estando a tecnologia sempre a mudar, é necessário acompanhá-la e continuar a aprender.

Finalmente, os alunos que mostram adaptação e se tornam bem sucedidos, reúnem três características-chave: 

1. Motivação 

De longe, o fator mais importante. Nota-se um interesse genuíno por tecnologias e percebe-se que a pessoa está certa do que quer fazer. 

Munique menciona, aliás, o caso de um aluno – pescador, antes de entrar no curso -, que teve um ótimo desempenho, pois “sempre teve a vontade” de aprender tecnologia, porém nunca “não houve a oportunidade” até encontrar a Ironhack. 

Na sua maioria, são geralmente pessoas que já procuraram cursos gratuitos online e os fazem por mérito próprio ou então que já têm algum conhecimento originado desse interesse.  


2. À vontade com o computador 

Para começar, “desenrasque” é a palavra de ordem. Não precisa de saber codificar de antemão, mas deve saber usar um computador e ter a capacidade de não “bloquear” quando algo não dá certo a nível do utilizador.


3. Resolução rápida de problemas 

Todos conseguem aprender, mas nem todos o conseguem fazer de forma ágil, tal como o programa exige.

A Ironhack faz um teste de competências, que visa determinar se o aluno consegue seguir a lógica, adquirir rapidamente informação e usá-la na resolução de problemas. 


Formas e facilidades de pagamento 

A Ironhack é uma escola privada com fins lucrativos, cujos preços dos cursos podem ser consultados no website próprio.

Adicionalmente, a empresa foi pioneira a fazer parcerias para oferecer Income Share Agreements (ISAs), um esquema financeiro de elevado crescimento em Portugal através da Student Finance e da Fundação José Neves

Quanto às características valorizadas para a obtenção de crédito, os financiadores dão especial importância ao histórico do aluno e à experiência no mercado de trabalho. 

“É muito fácil acharmos que gostamos, mas nem sempre é assim”, remata Munique. De uma forma geral, tanto as escolas como as fornecedoras de crédito tentam evitar que pessoas “sem rumo” e que estejam de momento sem emprego assumam que é na tecnologia que vão encontrar a solução para a sua vida, sem qualquer outro critério.


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Entrevista: Sofia Galante 

Revisão/Edição: Helena Antunes 

Ilustração: Sónia Garcia Fevereiro

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