Estratégias para educadores aproveitarem a tecnologia para Educação

Desenvolver um mindset digital: cinco estratégias para ajudar os educadores a tirar o máximo proveito da tecnologia para Educação 

As iniciativas de tecnologia para Educação falam geralmente sobre o desenvolvimento de “mindsets digitais” em professores, alunos e diretores escolares. Geralmente este conceito está ligado à ideia de saber como usar a tecnologia, compreender os seus benefícios e usá-la para melhorar os processos diários, as principais atividades e, acima de tudo, o ensino e a aprendizagem.

Estes são certamente atributos importantes de um “mindset digital”, mas considero que ter um “mindset digital” é mais amplo do que esta noção. Em vez disso, falar em “mindset digital” significa falar de atitudes, valores e comportamentos que ajudam as pessoas dentro de um sistema educativo a tirar o máximo proveito dos investimentos em tecnologia para Educação e a usá-la da melhor maneira possível.

Em seguida partilho aqueles que considero serem os cinco atributos fundamentais de um “mindset digital” e métodos para apoiar os adotantes da tecnologia para Educação a desenvolver estas mentalidades.

Ter uma visão 


Como diz o velho ditado, se não soubermos para onde vamos, vamos acabar noutro lugar qualquer. Um dos maiores erros que vejo nos programas de tecnologia para Educação é uma visão para a integração da tecnologia. Uma visão bem definida e claramente articulada desenvolvida por todas as partes interessadas (incluindo professores, alunos e pais) imprime coerência a um programa de tecnologia e serve como uma estrutura organizadora na qual todos os objetivos, aquisições de tecnologia, políticas, ações e atividades instrucionais podem ser desenvolvidos e sobre os quais os resultados podem ser avaliados (Burns, 2019).

Saber “desaprender” 


“Desaprender”? Certamente isso é um erro de digitação? De modo nenhum. Sabemos que é importante ajudar os professores a aprender como usar a tecnologia e como usá-la para o planeamento, formação e avaliação. No entanto, para ajudar profundamente os professores (e diretores) a adotarem novas competências, valores e crenças para o ensino com tecnologia, temos que ajudá-los a desaprender velhas crenças, práticas e hábitos e aprender e reaprender as competências, crenças e valores que ajudam professores e diretores a usar a tecnologia para fazer melhorias educativas significativas.

A única coisa mais difícil do que aprender algo novo é desaprender algo antigo (Ackoff, 1974). Para ajudar os professores nesse processo precisamos ajudá-los a identificar o que não sabem, mudar os seus modelos mentais para adotar novos modelos e fornecer muito apoio e tempo para que isso aconteça. Uma maneira importante de promover a aprendizagem/desaprender é através da aprendizagem profissional que enfatiza a prática e a reflexão. Através da prática, os iniciantes na adoção de tecnologia para Educação podem melhorar a sua prática de ensino para torná-la mais consistente com a de profissionais experientes e bem-sucedidos (Schon, 1987). Através da reflexão os professores podem unir mudanças em suas práticas, crenças e valores. 

Deixar de controlar 


Nas salas de aula tradicionais o professor é o locus de todo controlo. O professor aprova o currículo, cria lições, define o ritmo da aprendizagem, gere as instruções, controla o que os alunos fazem e age como guardião do conhecimento. Mas a tecnologia muda esse paradigma.

A Internet pode disponibilizar mais conhecimento de conteúdo do que o professor ou qualquer livro didático e, quando os alunos usam a tecnologia, geralmente aprendem conteúdo, formulam ideias, trabalham com ritmo e criam conteúdos que vão muito além dos parâmetros das atividades da sala de aula ou do currículo.

A luta dos professores em abandonar o controlo é um dos maiores impedimentos à mudança de prática. Muitos professores temem que o uso da tecnologia e de práticas mais centradas no aluno possa resultar em caos e que esse caos tenha um impacto negativo na aprendizagem do aluno.Os professores que adotaram com sucesso a tecnologia sabem que ainda estabelecem a cultura e o clima da sala de aula e proporcionam aos alunos muita autonomia e espaço para auto-expressão e criatividade com a tecnologia. Mas chegar lá leva tempo e os professores precisam de apoio e tempo para que isso aconteça (Heath, Burns, Dimock, Burniske, Menchaca e Ravitz, 2000).

Compreender a mudança 

Se os governos ou escolas gastam muito dinheiro para colocar a tecnologia nas mãos de professores e alunos, é justo dizer que esperam ver algum tipo de mudança. A mudança é um processo complexo e para aproveitar ao máximo os nossos investimentos em tecnologia para Educação precisamos de compreender algumas das características do processo de mudança. Desta forma, podemos gerir as expectativas; tomar decisões mais informadas sobre como ajudar os professores a integrar melhor a tecnologia no seu próprio ensino; compreender quem precisa de suporte, quanto e quando.

Alguns pontos a serem lembrados: 

  • Adotar uma visão a longo prazo em relação à mudança: a tecnologia muda rapidamente, mas os seres humanos e as organizações tendem a resistir à mudança ou a adotá-la lentamente (a maioria das pesquisas apontar para 5 a 7 anos).
     
  • Oferecer aos professores quantidades iguais de pressão e apoio: os professores precisam saber que é esperado que eles mudem as suas práticas usando a tecnologia. Mas essa pressão deve ser combinada com muito apoio – humano, material, logístico, instrucional e emocional. Pressão sem suporte é igual a frustração e nenhuma melhoria.
     
  • A mudança não é linear: é uma jornada muito desigual. De facto, os investigadores falam em “quedas na implementação”. Os professores estão a evoluir positivamente, compreender a ideia de aprendizagem ativa com a tecnologia e…de repente, regridem, voltam aos velhos hábitos ou desistem. Isso é completamente normal e é, por isso, que uma pessoa para prestar apoio é essencial para ajudar a manter os professores em constante evolução.
     
  • Nem todo professor vai reagir à tecnologia da mesma maneira: alguns irão abraçar a tecnologia; outros vão rejeitá-la. Ao trabalhar com professores, é importante compreender que existem “tipos de mudança” que exibirão padrões semelhantes de comportamento em relação a uma mudança proposta (Rogers, 1995). Obviamente, nem todas as pessoas se enquadram nessas categorias, mas o conhecimento desses tipos de mudanças é útil.
     
  • Os professores irão abordar o uso da tecnologia com várias preocupações: as preocupações variam de estágio para estágio, de como algo (por exemplo, o computador) os afeta (preocupação pessoal), como eles podem usá-lo (gestão) e como este se encaixa no ensino (adaptação). Ao identificar o nível de preocupação do professor, é possível direcionar melhor a assistência ao professor (Hord et al. 2006).

Aprender a partir do falhanço

Em algum lugar e de algum modo parte do seu programa de tecnologia inevitavelmente irá falhar. O fracasso nem sempre é mau; pode ser benéfico e saudável, mas somente se não for ocultado. Ao reconhecer a falha, a organização e as pessoas do seu sistema educativo irão aprender com o erro e tentarão corrigi-lo. Este pode ser o maior desafio.

As novas tecnologias prometem maneiras mais eficientes de trabalhar, formas interativas de aprendizagem e formas criativas de comunicar informações e participar de experiências. Mas os sistemas educativos só podem capitalizar o potencial da tecnologia se ajudarem todos no sistema – professores, diretores, administradores, pais e alunos – a compreender o seu potencial, a aprender a aprender e a ensinar de maneira a capitalizar esse potencial e ainda conhecer as mudanças que a tecnologia irá gerar e aprender com o fracasso – assim como com o sucesso. 

 
Referências

Ackoff, R.L. (1974). Redesigning the Future. New York, NY: John Wiley Press. 

Burns, M. (Forthcoming, 2019). For want of a good theory: Considerations for technology integration in well-resourced schools. In A Closer Look at Educational Technology. New York, NY: Nova Science Publishers. 

Heath, M., Burns, M., Dimock, K.V., Burniske, J., Menchaca, M., & Ravitz, J. (2000). Applying Technology to Restructuring Learning. Retrieved from https://files.eric.ed.gov/fulltext/ED448977.pdf 

Hord, S.M., Rutherford, W.L., Huling-Austin, L. & Hall, G.E. (2006). Taking Charge of Change. Austin: Southwest Educational Development Laboratory.

Rogers, E. (1995). Diffusions of Innovations, 4th ed. Free Press.

Schon, D. A. (1987). Educating the Reflective Practitioner: Toward a New Design for Teaching and Learning in the Professions. San Francisco, CA: Jossey-Bass.
 

Mary Burns é especialista sénior em tecnologia e desenvolvimento profissional no Education Development Center em Waltham, MA. Nos últimos 22 anos ela trabalhou em todos os continentes do mundo, ajudando Ministérios da Educação, distritos escolares, escolas e universidades a pensar, planear e adotar a tecnologia e trabalhou com professores e educadores para integrar com sucesso a tecnologia.

Entre em contato com ela em mburns@edc.org ou em mary.burns@gmail.com.

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