Le Wagon: precisamos ficar confortáveis com o desconforto de não saber tudo

Entrevista com Shannon Graybill, diretora do bootcamp Le Wagon em Portugal.

Shannon Graybill, norte-americana a viver em Lisboa há sete anos, trouxe a escola de código francesa Le Wagon para a capital em 2015. Tudo começou quando a própria sentiu curiosidade por aprender mais sobre código num momento em que a oferta do setor em Portugal era reduzida. 

Veja a nossa conversa aqui:

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Como tudo começou

A viver em Lisboa desde 2013, Shannon Graybill descreve-se sobretudo como uma “lifelong learner”. Fala com paixão sobre o início da escola de código Le Wagon em Portugal, com o propósito de ajudar as pessoas a alcançar os seus sonhos através da transmissão de novas skills.

Foi esse o motivo que a levou a trazer o bootcamp para solo nacional quando corria o ano de 2015. Percebeu que, na altura, funcionava unicamente a Academia de Código em Portugal, destinada apenas a portugueses em situação de desemprego. Graybill revela-nos, então, que encontrou aí uma lacuna no mercado português, no qual poderia oferecer algo mais. 

Quando pensamos na Ironhack, essa é também a maior diferença entre ambos os bootcamps, já que a Le Wagon atrai um leque mais diversificado de alunos que a espanhola-americana Ironhack, quanto ao objetivo a atingir com o curso.

A Le Wagon não se foca exclusivamente nos que ambicionam novas qualificações para iniciar uma carreira distinta. Destina-se também a quem procura aprender mais sobre código, entender melhor a tecnologia (como a própria Shannon quando se interessou pela área) e ainda a quem almeja uma carreira mais flexível, com o intuito de trabalhar enquanto freelancer e nómada digital. 

Cursos atuais e novidades

Competências técnicas para criativos e profissionais, é este o ponto de partida da escola. Em Lisboa, o coding bootcamp conta com o curso de Web Development, que ensina Back-End (programação) e Front-End (Design e UX/UI) em regime part-time e full-time. Em 2021, está previsto o lançamento de um novo curso, Data Science, nos mesmos moldes e ambos disponíveis no campus e online.

Em relação a quem se destinam os cursos, o primeiro dirige-se a pessoas sem grande conhecimento prévio que procuram tornar-se num Software Developer e o segundo visa recrutar alunos mais experientes, já com algum conhecimento na área. 

Plataforma digital de ensino, professores e colegas 

A nível de ensino, antes do começo do curso, disponibilizam-se bastantes materiais através de uma plataforma online e em diversos idiomas (incluindo português do Brasil). O objetivo é criar uma boa base de entendimento e intuição das tecnologias abordadas. 

Em relação às aulas expositivas após o inicio do curso, até à pandemia, foram sempre realizadas por professores localizados em Portugal em aulas presenciais. Com a pandemia, a Le Wagon passou a oferecer aulas online também com professores localizados no estrangeiro, sendo que hoje a escola opera nos dois modelos em simultâneo. 

Após as aulas, os alunos devem fazer exercícios sobre o que aprenderam. No início do curso, fazem-no geralmente a dois, mas com diferentes colegas para que todos trabalhem com pessoas com diferentes níveis de conhecimento (multi-level learning). Já no final do curso, o foco é trabalhar em equipas maiores, fomentando o trabalho de grupo.

Nas primeiras três semanas, ensinam-se os fundamentos para aprender a codificar, de modo a estruturar aplicações com programação orientada a objetos (object-oriented programming).

Depois, nas semanas seguintes, muitas das tarefas realizadas já serão feitas de forma automatizada, mas um início mais básico permite um bom entendimento da tecnologia por detrás dos programas. 

O ensino é feito em módulos, que podem durar entre quatro dias a duas semanas, dependendo da complexidade da tarefa. No total, cada curso tem entre nove a 24 semanas, em full-time ou part-time, respetivamente.

Zona de (des)conforto permanente e otimismo 

A Le Wagon apresenta um ambiente de aprendizagem intensivo. Os alunos são diariamente expostos a conceitos novos e muitos dos exercícios requerem conhecimento que, às vezes, os mesmos ainda não dominam ou ainda não tiveram exposição. 

Neste caso, a ideia é que o aluno vá procurar por si a informação, com a intuição da tecnologia já adquirida e com a ajuda dos professores. É o “aprender por fazer” (“learn by doing”), que motiva a ir procurar soluções à medida que estão face a problemas. 

Muito do processo de aprendizagem ocorre por “estar fora da zona de conforto e sentir-se muito desconfortável”, explica Graybill. Todavia, a escola fomenta uma atitude muito otimista, que visa motivar o aluno com o pensamento de que vai conseguir ultrapassar os obstáculos. “Em tecnologia, quanto mais sabemos, mais sabemos que não sabemos. Tecnologia é sobre resolver problemas constantemente”, concluiu.

Numa carreira nesta área, “como em quase tudo na vida, se queremos fazer algo, rapidamente nos apercebemos de que não sabemos tudo o que necessitamos. É preciso saber ficar confortável em não saber todas as respostas e procurarmos respostas por nós mesmos”. É caso para “aprender a aprender” (“learning how to learn”). 

Junior vs. senior: as diferenças entre programadores

Estar confiante na capacidade de aprender é de tal forma importante, que ajuda a compreender a diferença entre um programador junior e um sénior, como se classificam estes profissionais no meio. 

Ou seja, “um programador senior consegue estar calmo mesmo quando encontra um bug no código ou algo que não consegue compreender ou solucionar.” Ainda assim, tem a confiança de que há-de encontrar a solução (numa ótica de “I’ll figure it out”).

Do outro lado, o programador júnior – ou aluno de bootcamp –, chega a duvidar do valor das suas capacidades, sendo que até mesmo um pequeno desafio pode despoletar quase uma crise existencial, onde o programador coloca em causa o seu próprio rumo de vida, conta Graybill.

A diretora confidencia-nos que “trabalhar com tecnologia é aprender a estar confortável com o desconforto de não sabermos tudo e confiarmos em nós, que conseguimos encontrar a solução.”

Mentalidade de principiante e vencer a “síndrome do impostor” = sucesso

Sem dúvida, os alunos que tiram maior proveito do curso são os que estão preparados para ser principiantes. Em jeito de resumo, tal significa a predisposição a aprender e cometer erros. Posto isto, atingir sucesso requer uma mentalidade aberta e até mesmo um “ego pequeno” para que não haja resistência em adquirir novas formas de trabalhar. 

Na verdade, a tendência mostra que os alunos mais bem-sucedidos a conseguir emprego nem sempre foram os melhores alunos, “tecnicamente”. Aqui, foram, sim, os alunos que, apesar de não terem uma performance vistosa no curso, mostraram a atitude de tentar. São estes os que venceram a “síndrome do impostor” (que todos sentimos, por vezes) e que, ainda assim, tentaram. Nas palavras de Graybill, é tudo sobre “putting yourself out there”, tal como em tantos outros desafios da vida.

De igual modo, é um comportamento que hoje se tornou fulcral nas empresas, que se reflete em “recrutar um mindset e não uma habilidade específica”, explica a diretora.

Processo de recrutamento 

Com vista a encontrar o candidato ideal, a Le Wagon atenta a alguns pontos auferidos quando os alunos contactam com a informação pré-disponibilizada antes do curso:

  • Resolução de problemas básicos
  • Aptidão para aprender a codificar
  • Apreender conceitos rapidamente

Apoios financeiros

Os cursos são pagos, porém, estão disponíveis diversos apoios financeiros. Além da atribuição de bolsas a alunos locais, a Le Wagon conta ainda com a parceria com a Fundação José Neves, que permite obter o Income Share Agreement (ISA).

Entrevista: Sofia Galante 

Revisão/Edição: Helena Antunes 

Ilustração: Sónia Garcia Fevereiro

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