O que funciona na educação digital?

Estudos científicos em várias partes do mundo mostram que a distribuição de hardware pelos alunos e escolas não é por si só uma medida eficaz para melhorar o ensino. No entanto, a tecnologia pode ter um impacto muito positivo quando este hardware é combinado com software. A individualização e adaptação dos conteúdos desse software ao nível do aluno é um fator chave para o sucesso destes programas.

A tecnologia foi uma ferramenta essencial para a educação neste último ano de pandemia. Por exemplo, sabemos que as crianças sem acesso a meios tecnológicos nas suas casas foram aquelas que sofreram maiores perdas ao nível da aprendizagem. A literatura científica demonstra que a tecnologia tem o potencial de melhorar as capacidades cognitivas e não cognitivas de uma criança também fora deste contexto pandémico, e felizmente têm havido cada vez mais iniciativas que tentam mostrar que o futuro passa pela educação digital. Contudo, é essencial perceber, através de uma análise rigorosa a experiências passadas, que tipo de intervenções têm melhor retorno, de forma a podermos investir recursos no que será melhor para os nossos alunos.

O potencial impacto da tecnologia na educação das crianças depende muito da forma e contexto na qual esta é introduzida. Por exemplo, num contexto não pandémico, sabemos que fornecer apenas hardware a escolas e às famílias dos alunos não melhora os seus resultados em testes cognitivos (como podemos ver nestes exemplos em Israel, no Reino Unido, na Colombia, no Peru, nos Estados Unidos e na Roménia). 

No entanto, vários estudos mostram que abordagens pedagógicas que combinem hardware e software especificamente desenhado para desenvolver as capacidades dos alunos têm maior potencial. Esta abordagem é chamada de Computer Assisted Learning (CAL). Na Índia, um programa que consistia em jogos de matemática cujo nível do jogo correspondia às capacidades dos alunos melhorou as suas notas ao fim de um e dois anos. Nos Estados Unidos, um programa CAL melhorou as capacidades de pré-álgebra e álgebra principalmente em alunos de turmas maiores. Novamente na Índia foi implementado o programa “Mindspark”, tendo sido especificamente desenhado para se adaptar ao nível de conhecimento dos alunos. Este programa inclui um teste de diagnóstico inicial e um algoritmo que se actualiza constantemente de acordo com o nível de conhecimento de cada criança, adaptando o ensino às suas necessidades. A implementação deste programa levou a uma relevante melhoria dos resultados em matemática e línguas. Os ganhos foram especialmente significativos para os alunos com maiores dificuldades. 

Tanto os autores dos estudos acima como os autores de uma meta análise (uma combinação de vários estudos científicos) sobre o impacto da tecnologia em educação, apontam para a capacidade desta se adaptar ao nível de conhecimento de cada aluno como um dos factores chave para o sucesso destes programas. Por exemplo, várias avaliações de CAL na China não encontraram impactos positivos na aprendizagem dos alunos. A explicação dos autores para estes resultados é a falta de customização individualizada dos programas.

É assim essencial que os programas de educação digital sejam desenhados e implementados de acordo com a evidência e as melhores práticas. Estas apontam para a personalização do ensino como uma das maiores mais valias da introdução de tecnologia na sala de aula. Para implementar estes programas a uma escala maior, torna-se ainda importante perceber como é que estes interagem com aspectos até agora importantes para o sucesso dos alunos, como por exemplo os professores e ou a socialização entre colegas – temas que serão discutidos no meu próximo artigo.

Joana Cardim Dias

Investigadora e aluna de PhD na Nova School of Business and Economics

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