Projetos, Tecnologia e o Imperativo de Mudança

Nos eventos relacionados com Educação, nomeadamente naqueles que se debruçam sobre a inovação pedagógica e utilização das tecnologias na aprendizagem, é recorrente ouvirmos falar de competências para o século XXI e da necessidade de ter alunos preparados para os desafios deste século. No entanto, caminhamos rapidamente para o final do primeiro quarto de século e o desconhecimento ou falta de interesse em relação a esta temática ainda estão bem patentes na sociedade, até mesmo por parte de quem tem responsabilidades na área da Educação.

Na realidade, a velocidade a que a mudança ocorre no mundo e que é visível nos mais variados setores da sociedade torna bastante difícil uma antevisão dos desafios que nos vão ser colocados a médio/longo prazo, mas ao mesmo tempo, obriga-nos a agir no sentido de promover uma Escola que prepare realmente os alunos para todas estas transformações. Se há duas décadas nos dissessem que iríamos viver agarrados a dispositivos que tínhamos no bolso e que estes nos permitiriam aceder a qualquer fonte de informação, comunicar com pessoas em qualquer ponto do globo e que praticamente todas as atividades profissionais dependeriam em grande escala da utilização da tecnologia, possivelmente, acharíamos exagerado. Se nos falassem de Self-Driving Cars, de Inteligência Artificial ou da Internet das Coisas, pensaríamos tratar-se de ideias apenas possíveis no domínio da ficção científica.

Assim sendo, mais do que olhar para o futuro, interessa olhar para o presente e para os desafios que nos são colocados diariamente, tanto a nível pessoal como profissional. Interessa olhar para a natureza das interações entre indivíduos, para a forma como hoje comunicamos e nos relacionamos com os outros, para a quantidade e qualidade da informação que nos chega, mas também de quais as competências necessárias para a analisarmos uma forma crítica.

Quando olhamos para a sociedade e para o que são hoje as exigências do mercado de trabalho, mas também as exigências de uma sociedade que se esperava ser do conhecimento, mas que se tem ficado pela informação, ainda para mais, nem sempre verdadeira, ou quando olhamos para a importância crescente que a tecnologia assume nas nossas vidas e principalmente, nas vidas dos nossos jovens e crianças, torna-se bastante difícil enquadrar nesta realidade uma Escola agarrada a um modelo que pouco ou nada se alterou nos últimos 200 anos.

Como pode então a Escola ajustar-se a toda esta realidade que, muito provavelmente, será bem diferente da que teremos dentro de 20 anos? Como preparar alunos para uma sociedade com profissões, características e exigências que desconhecemos?  

Ainda que a resposta a estas perguntas possa não ser direta, nem tampouco haja soluções simples para problemas complexos, uma abordagem ao processo de aprendizagem centrado na implementação e gestão de Projetos poderá dar, de certa forma, resposta a estas questões.

No entanto, o Trabalho de Projeto, quando desenvolvido em contexto educativo, tem diversas especificidades que devemos ter em consideração, como tal, interessa definir algumas ideias-base:

– A implementação de um projeto pressupõe a existência de um produto final. Esse produto pode não ser académico (ex. texto, apresentação ou peça de teatro) ou pode até nem ser físico (ex. evento, ação, resolução de um problema);

– O compromisso dos alunos é maior quando são suas as ideias que dão origem a um projeto;

– Qualquer projeto engloba um conjunto vastíssimo de competências e conteúdos que abarcam as várias disciplinas. É impossível fazer um projeto de uma só disciplina. Tal como na vida, os conteúdos das várias áreas, nos projetos, articulam-se, enriquecendo as aprendizagens;

– Ao contrário do que ocorre no mundo empresarial, em que a qualidade do produto final é determinante no sucesso do projeto, em Educação, o mais importante é o processo. O produto pode até nem ter a qualidade desejada, mas é durante o percurso que os alunos fizeram até chegar ao produto final que se adquirem as competências e conhecimentos;

Partindo destas ideias, percebemos que o que se pretende com a implementação de projetos na aprendizagem é que seja possível promover a criatividade desafiando os alunos a criarem, mas também a planificarem, desenharem e executarem um produto final. Pretende-se que os alunos desenvolvam o espírito crítico, a capacidade de liderança e de tomada de decisões através do trabalho colaborativo inerente a esta abordagem. Pretende-se que discutam, que comuniquem e que sejam capazes de se adaptar a diferentes contextos, colegas e desafios.

Procura-se que os alunos colaborem, interajam, resolvam problemas reais, que olhem para o mundo com um olhar crítico, pois durante um projeto, o mundo é o limite para a criação. E é durante este processo criativo que se pretende que os alunos utilizem as tecnologias, recolhendo informação, na elaboração do próprio produto ou no acompanhamento e monitorização do projeto.

A tecnologia, tal como os projetos, fazem parte do nosso quotidiano, como tal, nada como utilizá-las em conjunto para enriquecer o processo de aprendizagem e mostrar como a primeira é uma poderosa ferramenta quando utilizada em benefício do aluno e os segundos, uma abordagem que garante realmente a aquisição de importantes competências para a vida.

Rui Lima

Professor e diretor pedagógico no Colégio Monte Flor há 19 anos, tem estado envolvido em diversos projetos nacionais e internacionais relacionados com Inovação Pedagógica, Cenários de Aprendizagem, utilização de Tecnologias na Educação e Trabalho Colaborativo. Nos últimos anos, tem participado ativamente em iniciativas relacionados com Ambientes Educativos Inovadores, Programação no 1º ciclo e Mudança de Paradigma Educativo. É autor da obra “A Escola que temos e a Escola que queremos” e coautor do livro “Scratch e Kodu – Iniciação à Programação no Ensino Básico”. 

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