Que desafios podem ser oportunidades?

Na realidade educativa portuguesa surge um largo conjunto de oportunidades para a experimentação e conceção de novos modelos de educação.

O fim da tradição letiva como a conhecemos poderá ter acontecido a 12 de março, após o anúncio do encerramento das escolas (a partir de 16 de março), devido à pandemia da Covid-19. A medida governativa atirou para casa cerca de 2 milhões de alunos e milhares de docentes, que têm agora de retomar – através de soluções para o ensino à distância – a atividade escolar para concluir o ano letivo 2019/2020.

Ora, esta nova realidade portuguesa, que é também global, trouxe consigo um largo conjunto de desafios para os sistemas educativos, mas também de oportunidades para a educação, tal como dá nota a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) num documento sobre o futuro da educação.

Neste documento, a OCDE destaca que “a atual vaga de encerramentos de escolas oferece uma oportunidade para a experimentação e para a conceção de novos modelos de educação e de novas formas de utilização do tempo de aprendizagem presencial”.

Mas, afinal, que desafios poderão ser transformados em oportunidades?

O primeiro grande desafio, transformado rapidamente em oportunidade, foi colocado às escolas e às direções dos agrupamentos. As instituições de ensino foram ‘obrigadas’ a desenvolver planos de emergência que permitissem aos professores trabalhar remotamente. Como tal, houve uma grande necessidade de adaptação e de desenvolvimento de capacidades, sobretudo para a docência, uma vez que o ensino à distância penaliza as relações interpessoais Professor – Aluno.

Em apenas três semanas, o paradigma do ensino à distância, bastante enraizado nas instituições de ensino superior, ganhou um novo fulgor e estendeu-se como solução para o ensino básico e secundário. Para tal, as escolas e os professores passaram a recorrer a plataformas freemium como o Zoom, Microsoft Teams, Google Classroom, etc., e a desenvolver conteúdos adaptados à nova realidade online. Um esforço que deverá ser rentabilizado após a pandemia como complemento às aulas presenciais.

Com o facto de o final dos principais ciclos de estudo em Portugal estar dependente da realização de exames nacionais (sendo que no presente ano letivo apenas serão mantidos os exames do 11º e do 12º ano), o sistema de educação português é desafiado a repensar os modelos de avaliação através da aplicação de testes e exames online que promovam a justiça e a segurança dos mesmos. No entanto, o desafio vai mais além dos exames nacionais. Na maioria das disciplinas os alunos faziam testes de avaliação e dada a ausência de soluções imediatas para a concretização de testes online, é exigida aos professores a adaptação dos próprios modelos de avaliação.

A OCDE realça ainda que os conteúdos desenvolvidos nesta altura poderão ser essenciais para a partilha de conhecimentos entre pares nacionais e internacionais, uma vez que, apesar de os planos e currículos de estudo serem diferentes, as matérias têm uma estrutura base comum. Portanto, não será de estranhar se, no futuro, os docentes de uma determinada área de ensino em Portugal cederem os materiais desenvolvidos durante esta pandemia a docentes de outros países, fortalecendo relações de proximidade entre estruturas de ensino, professores e até alunos.

Outro dos grandes desafios passa pela necessidade de capacitar os professores para tirarem o máximo partido dos avanços digitais, podendo ser necessário recorrer ao ajuste do próprio plano de estudos associado às licenciaturas e mestrados nas áreas do ensino e da educação, mas também potenciar a reciclagem dos conhecimentos digitais dos professores que estão já no mercado de trabalho. Esta oportunidade, além de potenciar as competências digitais dos professores, poderá trazer consigo uma maior proximidade entre docentes e discentes, uma vez que estes últimos vivem, grande parte da sua vida, nas plataformas digitais.

Há, todavia, uma grande dificuldade associada a esta era do ensino em tempos de pandemia – as condições de acesso aos dispositivos digitais não são as mesmas para toda a comunidade estudantil, com os alunos mais desfavorecidos a partirem em desvantagem face aos outros. Esta limitação deverá ser tida em conta naquela que é a atual definição do modelo de educação, mas também no futuro, exigindo medidas que estão para além da capacidade dos agrupamentos e escolas e que são de extrema importância para assegurar direito à educação de todas as crianças e jovens portugueses.

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