Saúde Psicológica nas escolas em tempos de pandemia: sugestões para professores/educadores.

(uma abordagem baseada na pirâmide das necessidades de Abraham Maslow)

A Saúde Psicológica é parte integrante da Saúde do ser humano. Não há Saúde sem Saúde Psicológica. A Organização Mundial da Saúde (OMS) define-a como um estado de bem-estar que permite às pessoas realizar as suas capacidades e potencial, lidar com o stresse normal do dia-a-dia, trabalhar produtivamente e contribuir ativamente para a sua comunidade. Portanto, a Saúde Psicológica está relacionada com a capacidade de utilizarmos as nossas competências para gerir os desafios do dia-a-dia nos diferentes contextos em que vivemos (por exemplo, na escola, no trabalho ou na família) (in Escolas SaudávelMente, Ordem dos Psicólogos Portugueses).

No ano letivo 2019/2020, a pandemia COVID-19, sem qualquer aviso prévio, obrigou a alterações no modo de funcionamento das escolas, nas metodologias, ferramentas, contextos e tipos de relações existentes entre os elementos da comunidade educativa. 

Neste novo ano letivo 2020/2021, que agora se iniciou, as incertezas e as mudanças nas dinâmicas relacionais e de aprendizagem mantêm-se e obrigam a esforços constantes e desafios nunca antes experienciados. É, pois, normal, surgirem sentimentos de incapacidade para lidar com os desafios que nos são colocados, gerando, por isto, sentimentos de ansiedade e stresse.

O desafio que nos foi colocado nos últimos meses obriga ao desenvolvimento de novas competências, nomeadamente a capacidade para lidar com a incerteza e o medo, a paciência e a resiliência, que nos permitirão sermos capazes de nos adaptarmos constantemente, com o objetivo de manter a nossa Saúde Psicológica. Não é um desafio fácil e, para comprová-lo, utilizemos como base a teoria das necessidades humanas de Abraham Maslow.

Maslow define cinco categorias de necessidades humanas: fisiológicas, de segurança, de afeto, de estima e, finalmente, de autorrealização. Segundo o autor desta teoria, um indivíduo só sente o desejo de satisfazer a necessidade de um próximo estágio se a do nível anterior estiver sanada. Portanto, a motivação para realizar estes desejos vem de forma gradual (Maslow, Abraham H., 2013).

São consideradas necessidades fisiológicas básicas as que estão relacionadas com a comida, a água, a respiração, o sono, etc., e sem as quais é impossível sentir-se motivado para uma ação. Assim sendo, é fundamental que neste regresso à escola, com todas as mudanças nas rotinas habituais que foram implementadas, os professores planifiquem o seu dia a dia garantindo que estas necessidades são satisfeitas. Após um período de ensino à distância, com a consequente necessidade de grandes ajustes no quotidiano, chegou o momento de uma nova redefinição que deve procurar ser o mais próxima possível do período pré pandemia. Criem-se, pois, novas e adequadas rotinas de sono e vigília; preparem-se lanches para lidar com os intervalos curtos e, em muitos casos, ausência de bar na escola; abuse-se de água ou outros líquidos pois a sua necessidade aumentou com o uso da máscara, aceite-se o cansaço proveniente desta nova rotina. Não se esqueça que sem estas necessidades satisfeitas não poderá alcançar o patamar superior. Recorde, sempre, que o mesmo é aplicável aos seus alunos e esteja, por isto, atento aos seus comportamentos para que possa educá-los também na implementação destes novos hábitos. 

No segundo nível da pirâmide de Maslow temos as necessidades de segurança: é a necessidade de nos sentirmos seguros perante algum tipo de perigo ou perante, por exemplo, a ameaça da perda de emprego. “A COVID-19 surgiu ao longe, como uma ameaça para quem vive do outro lado do mundo. Mas foi-se aproximando e, aos poucos, tornou-se também um problema nosso – do nosso país, da nossa cidade, da nossa rua, da nossa casa. Não se fala noutra coisa e temos a sensação de que o coronavírus pode estar em todo o lado: em todas as pessoas, objetos ou superfícies. Sentimo-nos vulneráveis, ansiosos e sem controlo. Estamos apreensivos relativamente ao futuro, alguns perderam o emprego …” (COVID-19: viver a pandemia sem entrar em exageros). 

No entanto, não devemos esquecer que a ansiedade resultante de um estado de alerta permanente pode paralisar-nos, deixando de ter o seu efeito positivo e protetor que nos leva a adotar e a cumprir as medidas que contribuem para nos deixar, a nós e aos outros, protegidos do vírus. Para tal devemos desenvolver algumas estratégias de regulação da ansiedade e do medo exagerado. É fundamental que a perceção de risco seja ajustada. Consulte informação credível e atualizada, especificamente, a que foi disponibilizada pela Organização Mundial de Saúde (OMS), Direção Geral de Saúde (DGS) e Ordem dos Psicólogos Portugueses (OPP). Se anda nervoso e com medo, se não consegue deixar de pensar no vírus, se se sente perdido e sem saber o que fazer, saiba que é normal. Evite pensamentos automáticos negativos (ex: “e se não nos estão a contar tudo, e se fico infetado, e se perco o emprego, etc.), não torne o cumprimento das recomendações uma obsessão e concentre-se naquilo que pode fazer para controlar a sua ansiedade e, consecutivamente, a sua perceção de medo. Mantenha as suas rotinas, faça exercício físico, alimente-se de forma saudável, envolva-se em atividades que lhe produzem prazer, dê-se um momento de relaxamento em cada dia, como que estando a carregar “no seu botão pause”, e não se esqueça que esta situação é temporária.

O terceiro nível da pirâmide está relacionado com a área social. É a necessidade de se relacionar com pessoas e grupos (amigos, colegas do trabalho, família, etc.), criando laços emocionais que ativem o sentimento de pertença. Ora, mais uma vez, este clima particular que se vive nas escolas veio dificultar a rede de relações estabelecidas entre os vários intervenientes. É normal, especialmente para os que acabam de chegar a uma nova escola, que sintam não pertencer a este grupo. Não se esqueça que muitas das atividades habitualmente promovidas pelas escolas para apoiar na adaptação ao meio (receção a professores a alunos, convívio nos intervalos, utilização de espaços próprios para os diferentes grupos) foram vedadas. É também expectável que sinta frustração e isolamento, nomeadamente por não ter oportunidade de prestar ajuda aos colegas, por não receber ajuda dos companheiros de trabalho. Aproveite as atividades desenvolvidas à distância para ver o rosto dos seus colegas e mais facilmente decorar o seu nome. Tratar alguém pelo nome produz um sentimento de identidade e ativa emoções positivas. Caso ainda não o tenha feito, associe uma fotografia ao seu email. Seja criativo, usando, por exemplo, um crachá com o seu nome e grupo de docência ou colando uma fotografia sua no cacifo da escola. 

No nível quatro temos a necessidade de Estima, isto é, a necessidade de nos sentirmos autoconfiantes, apreciados e respeitados por nós e pelos outros, com prestígio, reconhecimento, orgulho, etc. Trata-se do desejo de ser bom em alguma atividade para desenvolver uma autoestima positiva. Estas necessidades passam por duas vertentes: o reconhecimento das nossas capacidades pessoais e o reconhecimento dos outros face à nossa capacidade de adequação às funções que desempenhamos. São motivadas por uma necessidade de prestígio e reputação. Se pensarmos que com as mudanças ocorridas são exigidas novas competências e ser bom numa competência nova pode implicar tempo, é normal que a perceção de autoestima esteja a ser atingida e a avaliação dos outros possa não ser a melhor. Não se esqueça, tudo o que é aprendido de novo precisa de ser treinado e grande parte das nossas aprendizagens ocorre após o erro. Dê-se o direito de falhar.

Finalmente, no topo da pirâmide temos as necessidades de Autorrealização, também conhecidas como necessidades de crescimento. Incluem o desenvolvimento das próprias necessidades, a realização, o potenciar do seu valor, o gosto por aquilo que se faz e se consegue fazer. Neste nível de necessidade, os objetivos tocam o desejo da perfeição, o desejo de ativar todo o seu potencial. Quando se atinge este nível, surgem sentimentos de autocontrolo e independência, assim como vontade de assumir novos desafios. Talvez este não seja o momento da sua vida mais propício para atingir o topo da pirâmide. Não fique frustrado, isto vai passar. Além disso, o esforço que está a colocar neste momento é enorme. Já pensou que tudo é mais difícil: comer, beber, respirar, ter saúde, ter emprego, estar com a família, amigos e colegas, e ainda sentir-se confiante nas tarefas profissionais. Se isto lhe parece pouco está a desvalorizar-se… talvez deva procurar apoio psicológico. A propósito: a Ordem dos Psicólogos Portugueses disponibiliza no site imenso material de apoio à promoção da Saúde Psicológica. Consulte em www.ordemdospsicologos.pt.

Autora: Daniela Gomes, Psicóloga do Agrupamento Sá de Miranda.

Ilustração: Sónia Fevereiro

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