42 Lisboa: a Sociedade Civil e o Ensino Superior alternativo

Entrevista com Pedro Santa Clara, que lançou recentemente a 42 Lisboa, a escola voltada para o futuro, sem aulas, professores ou horários. O professor fala-nos da experiência em juntar privados no financiamento da educação e da procura por novos modelos para o desenvolvimento dos profissionais.

Veja a nossa conversa aqui:

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Pedro Santa Clara, doutorado em Finanças pelo INSEAD, ensinou a disciplina e fez investigação na área por vários anos na UCLA, em Los Angeles, Califórnia. Regressou a Portugal há 12 anos para trabalhar na Universidade Nova de Lisboa, onde se envolveu com vários projetos de inovação. Tornou-se, então, num elemento essencial na campanha de angariação de financiamento para o campus da Nova SBE em Carcavelos.

Em 2020, traz a Escola 42 – ou 42 Lisboa – para a cidade homónima. Fundada por Xavier Niel, empreendedor na área das telecomunicações, a escola de programação francesa teve início em 2013 e hoje está presente em mais de 20 países e 30 cidades.

A génese da escola centra-se na resposta à dicotomia observada por Niel no sistema de ensino francês: de um lado, universidades gratuitas com muitos alunos, mas que não ensinam o que as empresas, de facto, precisam. Do outro, escolas privadas com um bom sistema de ensino, mas apenas acessíveis a um número reduzido de alunos. De acordo com Pedro Santa Clara, a 42 funciona como um sistema alternativo de ensino para suprir esse mesmo problema.

42 Lisboa: feita por empresas para empresas

Na 42, a relação com a indústria é fundamental. “É uma escola feita por empresas e é também uma escola feita para as empresas”, comenta. “Não é uma universidade muito académica”, no sentido de fazer investigação fundamental. “O objetivo é produzir grandes profissionais para trabalharem nas empresas, fazerem start-ups, e para terem sucesso nas suas vidas profissionais.”

Totalmente gratuita para os alunos, a escola de código trata-se de um projeto filantrópico financiado por mecenas. O financiamento resulta dos donativos de diversas figuras e entidades da economia portuguesa, desde a empresária Ming Chu Hsu até instituições como Santander, Vanguard Properties, Fidelidade, Mercedes-Benz, Fundação José Neves e Observador, entre outros.

É uma escola inclusiva, já que qualquer pessoa se pode candidatar, independentemente da situação económica, qualificações académicas ou profissionais. É também um estabelecimento meritocrático, onde cada um é responsável pelo próprio caminho. A duração é, em média, de 3,5 anos – havendo quem acabe em 2 anos ou 5 anos.

O programa dá acesso a formação que pode levar até nível mais elevado de programação, podendo os alunos especializar-se em qualquer área associada, por exemplo, inteligência artificial, segurança cibernética, modelização 3D, jogos, entre outras.

Aprender num ambiente de motivação

Novos modelos de ensino são o que a 42 tem para oferecer. Parte-se do pressuposto de que aprender ocorre verdadeiramente “quando trabalhamos motivados pela resolução de problemas, no trabalho entre pares, num ambiente colaborativo” e gamificado, indica Pedro Santa Clara.

Na verdade, nesta escola em que não há aulas ou professores definidos, existe, sim, uma equipa pedagógica destinada a desenhar a sequência de experiências e problemas que ditam a aprendizagem. O conteúdo educativo é único por uma combinação de fatores, entre os quais:

1. O ónus da responsabilidade da aprendizagem está no aluno (não no professor)

Na educação tradicional, o aluno apresenta uma atitude passiva. Nesse caso, a responsabilidade do ensino cabe ao professor. Já na Escola 42, é o aluno que tem de fazer as suas escolhas e procurar conhecimento. “É uma mudança muito profunda na ética de trabalho – os alunos são muito mais adultos” do que numa escola tradicional, refere o professor.

2. Aprendizagem através da sequência de experiências e desafios

Tal como aprendemos a nadar após uma sequência de experiências com a água, na qual nos movemos de diversas formas, a mesma analogia é usada nesta escola de programação. Depois da seleção inicial, os alunos entram na “Piscina”, composta por uma série de desafios propostos com o objetivo de os resolver e entrar finalmente no programa.

Nesta “Piscina”, a ideia é que os alunos também se possam “auto-selecionar” e ver se, de facto, este método de aprendizagem é para si. “Existe imensa flexibilidade, os alunos vêm às horas que querem e trabalham o tempo que querem”, explica Pedro Santa Clara. O essencial é resolver os desafios, aprender a lidar com a frustração de nem sempre correr tudo bem à primeira vez e ganhar, assim, resiliência para tentar de novo.

3. Aprendizagem entre pares

Os alunos devem procurar o conhecimento que precisam para resolver os desafios. Trabalhar em grupo é fundamental, uma vez que permite aprender novas abordagens através da colaboração para chegar a novas soluções.

4. Programa flexível e variável

Existem 21 níveis a completar, sendo os primeiros sete obrigatórios e comuns a todos. Segue-se um estágio de seis meses numa empresa e depois o regresso à escola para completar a especialização. Cada um constrói o seu portefólio individual de competências, numa área de interesse pessoal, com base nas experiências que foi tendo.

5. Responsabilidade, autonomia e “aprender a aprender”

O objetivo do programa é produzir profissionais de elevada qualidade, desenvolvendo uma quantidade de aptidões humanas que são, de facto, as necessárias no futuro:  competências de autonomia, de capacidade de resolver problemas, de resiliência para lidar com a frustração, de colaboração com os outros.

Talvez a maior competência de todas é saber “aprender a aprender”, que será possivelmente a skill mais fundamental nos próximos anos. Sabemos que o progresso está a acelerar cada vez mais, logo, ao longo da nossa vida, teremos de aprender continuamente novas coisas e saber como as utilizar.

A proliferação dos novos modelos educativos

A 42 Lisboa ilustra a transformação lenta que começa a existir no Ensino Superior, com abordagens alternativas. “Não defendo que este método de aprendizagem seja bom para todos. Da mesma forma que o ensino tradicional não é bom para todos”, esclarece Pedro Santa Clara.

Na educação convencional, o professor é quase uma figura tutelar, que, para além de expor a matéria, organiza as obrigações dos alunos. Entre aulas, trabalhos e exames, todos devem aprender ao mesmo ritmo. Porém, sabemos hoje que este sistema funciona relativamente mal, com “taxas de desistência elevadas ou desmotivação por muitas razões”.

“Poucas universidades estão a repensar verdadeiramente o seu papel no futuro”, reflete. A iniciativa Stanford 2025 é a exceção e novas abordagens são discutidas: desde repensar o campus – para ser organizado por competências em detrimento de departamentos -, assim como planear uma experiência educativa de seis anos em que o aluno pode estudar em qualquer altura da vida.

No futuro, deverão existir várias soluções disponíveis, desenvolvidas por players não tradicionais. “A minha esperança é que no futuro tenhamos várias soluções possíveis. Não tenha que entrar toda a gente para o mesmo caminho”, anseia Pedro Santa Clara. O modelo da 42 poderá, pois, ser aplicado a outras áreas de conhecimento, além de que também deveremos ver novas experiências educativas a surgir.

“As grandes empresas tecnológicas hoje em dia são absolutamente indiferentes aos graus académicos.” As empresas procuram competências, pelo que deveremos ver o ensino a experimentar mais com esta visão. 

A importância da Sociedade Civil em Portugal

“É muito raro vermos inovação em qualquer indústria liderada pelo Governo, que tem quase o papel oposto de manter alguma estabilidade de modelos”, explica.

No caso da educação em Portugal, uma parte significativa do setor é pública e governada de forma muito rígida, com pouca autonomia para as escolas, financiada maioritariamente pelo Estado e com estruturas de carreira inflexíveis. “Dificilmente virá daí inovação sobre novos modelos de educação para o século XXI.”

“Por outro lado, acho que muita gente nas empresas e na sociedade em geral que está preocupada com a Educação”, quer ter um papel e intervir. É essencial haver iniciativa privada e envolvimento da Sociedade Civil, porque é daí que pode surgir mais rapidamente inovação.

A valorização da iniciativa na Sociedade Portuguesa

Na sociedade portuguesa, “o ónus de falhar é muito grande”. Tendo vivido e feito carreira nos Estados Unidos, Pedro Santa Clara constata que a cultura americana valoriza muito mais a iniciativa, a experimentação e até mesmo o falhanço que a nossa.

Torna-se crucial entender e aceitar que na vida “vamos aprender, vamos tentar e muitas vezes vamos falhar. E entender que falhar faz parte do processo.” Para o professor, é este medo de falhar que inibe no momento de procurar respostas. “Muitas pessoas não tentam novos desafios com medo de falhar. É algo que certamente temos que mudar, porque o caminho em que estamos também não está a funcionar”, conclui.

Entrevista: Sofia Galante 

Revisão/Edição: Helena Antunes 

Ilustração: Sónia Garcia Fevereiro

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